A Cal Hidratada nas Argamassas (01-2005) - Texto produzido pela Assessoria do Selo de Qualidade da Associação Brasileira dos Produtores de Cal (ABPC)

Se há um setor em que o conceito de “descartável” não pode sequer ser cogitado, definitivamente é o da construção civil. Para construir bem e com durabilidade, a argamassa é um dos itens que merece atenção especial. Usada desde os tempos dos faraós egípcios para unir e revestir as alvenarias, deve ser preparada com materiais de qualidade, para evitar problemas de fissuras ou rachaduras.

Como se compõe a argamassa? De cimento portland, cal hidratada, areia e água, em quantidades diversas, para formar uma proporção, ou “traço”, que varia de acordo com as aplicações. Por exemplo, a argamassa para revestimento interno é diferente da destinada ao externo. Segundo profissionais do setor, as proporções mais usadas, tanto para assentamento como para revestimento, são 1:1:6 e 1:2:9, em que o primeiro número é o volume do cimento, o segundo número é o volume de cal e o terceiro, o volume de areia. E a água? Bem, é chamada de “água de amassamento” e deve ser usada em quantidade suficiente para o pedreiro trabalhar, tomando cuidado para não ser colocada em excesso e deixando a argamassa muito mole.

 

Revestimento ou assentamento?

As argamassas para revestimento de paredes são normalmente feitas com areias mais finas. No caso de revestimento para melhor acabamento, o mais comum é fazer três camadas: chapisco, aplicada projetando-se a argamassa sobre a parede ou teto, formando uma camada fina; sua função é produzir uma rugosidade uniforme para melhor fixar a segunda camada, ou emboço, que vai preparar o revestimento para receber o reboco ou outros revestimentos. A última camada é o reboco, que deve formar uma superfície perfeitamente plana, para receber a decoração final.

Já as argamassas de assentamento são massas que unem os tijolos e blocos de concreto ou cerâmicos das construções. Sua finalidade é dar maior resistência, proteção contra a propagação do calor, frio ou do som, vedação à penetração de água e de vento.

 

Por que cal hidratada?

A cal hidratada é um dos principais elementos das argamassas porque promove uma série de benefícios para a edificação. Ela tem excelente poder aglomerante, assim como o cimento, que une para sempre os grãos de areia das argamassas.

A cal hidratada é extremamente fina e leve e por isso permite o preparo de maior quantidade de argamassa, com a redução do custo do m3. Suas partículas muito finas, ao serem misturadas com água, funcionam como verdadeiro lubrificante, reduzindo o atrito entre os grãos de areia. O resultado é melhor trabalhabilidade (ou liga), boa aderência e maior rendimento na mão-de-obra.

Mas as vantagens não param por aí: a cal hidratada tem extraordinária capacidade de reter água em torno de suas partículas, formando na argamassa uma dupla perfeita com o cimento. As argamassas à base de cal hidratada têm resistência suficiente quanto à compressão e aderência, tanto para assentamentos como para revestimentos, para atender as normas técnicas.

Por ser um produto alcalino, a cal hidratada impede a oxidação nas ferragens e, também por essa sua característica, atua como agente bactericida e fungicida. Além disso, evita que se formem manchas e apodrecimento precoce dos revestimentos; proporciona economia de tinta, pois permite acabamento mais liso e de cor clara; é compatível com qualquer tipo de tinta e outros acabamentos, como fórmica, lambris, papéis de parede, se respeitado o tempo mínimo de cura de 28 dias.

É importante ressaltar ainda que as argamassas à base de cal hidratada têm baixo módulo de elasticidade, ou seja, absorvem melhor as pequenas movimentações das construções e evitam, portanto, trincas, fissuras e até o descolamento (ou queda) dos revestimentos.

Não se pode deixar de frisar a notável durabilidade que a cal hidratada confere às construções. Argamassas à base de cal hidratada podem durar centenas de anos, ou até mais. Os exemplos para comprovar essa característica são muitos, entre eles a milenar Via Ápia (na Itália) e a Casa das Retortas, na capital paulista. A cal hidratada é um produto de aplicação milenar, enquanto o cimento portland só foi inventado em 1824.

 

Como comprar e estocar?

Se não for pura, a cal hidratada não vai proporcionar todos os benefícios citados. A cal deve ser fabricada de acordo com as normas técnicas, o que pode ser facilmente identificado verificando na embalagem (saco) do produto se constam a sua marca; seu tipo (CH-I, CH-II ou CH-III); o número da Norma Técnica (NBR-7175); o nome, ou razão social, do fabricante; e, para maior segurança, com o Selo de Qualidade da Associação Brasileira dos Produtores de Cal (ABPC) estampado na embalagem. O consumidor não deve se deixar levar pelo menor preço, que pode ter por trás produtos de má qualidade ou falsificados. A loja ou depósito devem também ter boas referências e oferecer materiais de boa procedência e com qualidade.

De uma boa compra vai depender a vida longa das construções e essa regra vale também para a areia, que não deve conter impurezas, e para o cimento portland, que também deve obedecer as normas da ABNT, mas não deve estar estocado por muito tempo, porque pode empedrar e reduzir.seu potencial aglomerante.

A areia deve ser a mais seca possível e armazenada em local limpo, onde não se esparrame. Quanto à água, não pode conter matéria orgânica, como argila, folhas e materiais oleosos.

 

Para não comprar gato por lebre.

O Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) coletou para análise, em outubro de 2004, amostras de 25 marcas de produtos vendidos como cal hidratada em todo o País. Dessas, dez tiveram de ser excluídas porque não eram cal, mas produtos com outras características físicas e químicas, embora vendidas como cal. Apenas 15 marcas puderam ser submetidas a testes de laboratório e seis foram reprovadas. O filito, um tipo de pó de rocha, foi apontado no relatório do Inmetro como o material mais comum adicionado à cal no processo de  adulteração. Produtos adulterados ou “de segunda” aparecem com a expressão “cal” em sua marca fantasia, confundindo o consumidor, mesmo em casos em que o fabricante descreve na embalagem que seu produto não é cal. O Inmetro comenta ainda que os fabricantes que alegaram que seu produto é apenas um plastificante para argamassas deveriam apresentar informações claras, de modo a não infringir os direitos básicos do consumidor.

Para o Inmetro, o consumidor está sujeito a comprar esses produtos de maneira errônea, devido à falta de clareza nas informações e ao próprio nome da marca.

O uso de produto não-conforme provoca, depois de meses ou até anos, o aparecimento de problemas típicos de falta de poder aglomerante: esfarelamento, manchas, trincas, fissuras, queda do reboco.

A maioria dos produtos adulterados ou sem qualidade traz recomendações como “o uso do cimento é indispensável”, “nunca utilizar sem cimento”, por serem produtos com poder aglomerante quase nulo. Já com a cal hidratada é perfeitamente possível trabalhar sem cimento em alguns casos (vide www.cimentoeareia.com.br/tracos.htm ).

Deve-se fazer as contas quanto ao rendimento dos produtos também. Aqui, o barato realmente sai caro, porque o rendimento da cal de segunda é tão baixo que torna a argamassa muito mais cara. A explicação é simples: a cal hidratada e o cimento são comprados a peso, mas dosados na argamassa em volume. Normalmente, a dosagem deve ser 1 lata de cimento, 2 latas de cal hidratada e 9 latas de areia. Enquanto um saco de 20kg de cal hidratada de qualidade tem volume de 30 litros, um saco de cal de segunda pode não chegar a 15 litros, dependendo da sua quantidade de impurezas.

Quem quiser saber a relação de empresas produtoras de cal hidratada conformes e não-conformes deve acessar o site www.cidades.gov.br/pbqp-h/fabricantes.htm, no link Cal Hidratada para Construção Civil, ou consultar a ABPC no endereço www.abpc.org.br, pois a associação mantém desde 1995 o Programa da Qualidade da Cal Hidratada para a Construção Civil, que monitora a qualidade de mais de 70 marcas de cales no mercado. (Fonte: Guia das Argamassas nas Construções, da Associação Brasileira dos Produtores de Cal-ABPC).