Numa planta da recém fundada cidade de Buenos Aires no século XVI, o característico "traçado xadrez". Nota-se a fortaleza situada junto ao Rio da Prata.

 
 

Detalhe de parte do centro da cidade de Buenos Aires atual, mostrando a regularidade das ruas e quadras, conseqüência das regras de traçado urbano das "Leyes de Indias".

 

 

Planta da cidade de Porto Alegre em meados do século XIX, área correspondente ao atual centro da cidade, demonstrando a adaptação do arruamento à península que adentra ao Lago Guaíba. Nota-se claramente a paliçada de defesa à leste, existente à época.

 

Detalhe do centro da cidade de Porto Alegre atual, mostrando claramente o desenho irregular do arruamento, em conseqüência de seu crescimento orgânico.

 

Cidades Portuguesas e Espanholas na América (06-2002)

Um viajante menos apressado, que se importe em caminhar e conhecer os detalhes de uma cidade visitada, vai notar diferenças fundamentais no traçado urbano entre as cidades fundadas por portugueses na américa, tais como São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, e entre as cidades fundadas por espanhóis, tais como Buenos Aires, Montevidéo e Santiago do Chile.

Um visitante brasileiro em Buenos Aires, por exemplo, certamente irá se impressionar com a regularidade da configuração das ruas e quadras, que são de uma rigidez cartesiana, pelo menos em seu centro histórico (ver figura à esquerda). Com toda a certeza, este turista terá muita facilidade em orientar-se na quadrícula, sendo quase impossível que se perca. Embora se possa reclamar de certa monotonia (certamente quebrada pela beleza dos edifícios), este traçado regular trouxe uma série de vantagens em termos de facilidades para a infra-estrutura urbana (fluxo de veículos, distribuição de energia e comunicação, redes sanitárias e drenagem, etc.).

Por outro lado, um turista argentino no Rio de Janeiro ou em Porto Alegre, por exemplo, ficará quase que chocado com o aparente caos que é a estrutura viária destas cidades. Certamente, terá dificuldades em orientar-se, apesar de serem cidades com uma topografia variada, com grande número de pontos de referência. De monotonia, com certeza ele não poderá reclamar.

Com raras exceções, as cidades fundadas por espanhóis seguiam as regras ditadas pelas "Leyes de Indias", que era um conjunto de leis aplicáveis às colônias espanholas nas américas, entre elas, leis que determinavam o traçado para os novos núcleos urbanos a serem implantados. No que se refere ao desenho das futuras cidades, as "Leyes de Indias" tomaram como base a configuração dos acampamentos militares romanos. O projeto se desenvolvia a partir de dois eixos perpendiculares (em ângulo de 90°), sob forma de uma quadrícula semelhante a um tabuleiro de xadrez, o chamado "traçado xadrez". Como este traçado imposto pela lei não levava em consideração a topografia natural do terreno, os colonizadores procuravam escolher os terrenos mais planos possíveis, entre outros quesitos a serem atendidos (posição estratégica, facilidades de acesso e defesa, fertilidade do solo, etc.). Este conceito tinha fundo na política colonial espanhola, que previa a extensão da cultura e das facilidades da matriz as suas colônias, além da obtenção de riquezas, obviamente.

Já nas cidades fundadas por portugueses, não havia uma legislação urbana a ser respeitada. As cidades nasciam organicamente, sem leis diretoras. Não havia a preocupação em escolher-se terrenos planos, a preocupação fundamental nos núcleos urbanos era a posição estratégica comercial e a facilidade de defesa. Não é por acaso que a Porto Alegre original situava-se numa península, facilmente defensável por uma muralha erguida à leste (ver figura à esquerda). As outras orientações eram protegidas pelo Lago Guaíba.

O arruamento das cidades fundadas por portugueses crescia conforme as nescessidades da população, sem planejamento, normalmente respeitando a topografia natural e a própria facilidade de implantação das vias (contornava-se os obstáculos, sem removê-los). Não havia na América portuguesa a política de extensão da cultura da matriz. Ao contrário da Coroa Espanhola, a preocupação da Coroa Portuguesa, em seu império ultramarino, era a obtenção de riquezas, pouco se importando com as condições em que viviam seus colonos.

Mas, afinal, qual é o melhor modelo?

Em nossa opinião, não há modelo melhor entre eles, cada um trouxe problemas e vantagens diferenciadas para o desenvolvimento de suas respectivas cidades. O processo de desenvolvimento destas cidades acabou diminuindo as diferenças originais, apesar de ainda perceptíveis. Inúmeras intervenções urbanas, feitas principalmente no século XX, trouxeram soluções variadas para setores isolados destas cidades, desde traçados do tipo xadrez em cidades brasileiras, até traçados orgânicos planejados em cidades hispânicas. Além disto, a partir do início do século XX, a maioria das cidades brasileiras mais importantes passou a contar com planos diretores de desenvolvimento urbano. Bons ou maus, o fato é que as cidades brasileiras começaram a crescer sob regras mais rígidas sob estes planos diretores. Cabe salientar que o crescimento urbano desordenado nas cidades da américa latina em geral, originando favelas, é um problema intimamente relacionado às más condições econômicas das populações, pouco se devendo às políticas urbanas implantadas.

Uma verdade é inegável: as diferenças tornaram estas cidades muito interessantes e atraentes entre si. Afinal, o mundo seria muito monótono se não fossem as características próprias de cada cultura.

 

Álcio Lopes Mota

Arquiteto - Idealizador, editor e "webmaster" da Cimento e Areia

 

Colaboração:

Alberto Giordanelli

Arquiteto - Sócio-Gerente da Camci - Constructora Americana Civil y Industrial de Buenos Aires

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