Um Pouco da História da Ponte do Rio das Antas (08/2003)

 

A Ponte Ernesto Dornelles, mais conhecida como Ponte do Rio das Antas, é uma obra que chama muita atenção pela beleza e grandiosidade. Na visão da engenharia é destaque pela sua geometria em arcos paralelos, e pelas soluções adotadas com os recursos da época.

 

Situada na RST-470 entre Bento Gonçalves e Veranópolis, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, a Ponte tornou-se uma necessidade para a população local, que fazia a travessia do rio com balsas de madeira. Um problema que se enfrentava quando o nível do rio estava cheio, diz respeito à dificuldade da travessia da balsa, pois a correnteza da água tornava-se muito forte.

A primeira tentativa de construção da ponte: o tabuleiro de rodagem ficava sobre os arcos.

 

Sua construção iniciou-se em 1942, com um projeto que previa a construção da ponte com dois arcos paralelos de 45 m de vão e três pilares dentro do rio, em nível normal das águas, e dois nos taludes da margem do rio. O comprimento da ponte era de 225 m mais os dois encontros. Neste primeiro projeto o tabuleiro era superior, apoiado nos arcos. Desta forma os arcos ficariam por baixo da pista de rodagem.

Neste projeto, os três pilares dentro do rio trouxeram muitas dificuldades no aspecto construtivo. Estes pilares interligavam os arcos passando por baixo da pista.

Em 1944, concluída a parte estrutural da ponte, houve a necessidade da realização da prova de carga, com a utilização de pedras. Esta prova foi uma exigência frente a algumas dúvidas quanto ao desempenho estrutural da ponte. Durante o ensaio um dos pilares cedeu, fazendo com que o trecho central da ponte desabasse. O desabamento fez várias vítimas. Iniciava-se então a busca por um modelo estrutural que, além de vencer o vão de 186 metros, também utilizasse os recursos locais.

Após o desabamento, o engenheiro Henrique Mayall realizou estudos locais para fixar diretrizes no desenvolvimento do projeto. Com base nestes estudos, concluiu que a estrutura teria que ser do tipo arco em concreto armado.

Descartando outras possibilidades como a estrutura tipo pênsil, que seria preferível do ponto de vista de favorecer a seção de vazão. Entretanto, na época da segunda guerra mundial, era muito difícil conseguir cabos novos de aço. Foi verificado também que sistemas aporticados com montantes inclinados, não apresentavam vantagens quando comparados com os sistemas em arco. Hoje, talvez, se optasse pela estrutura em concreto protendido, mas na época esta solução não era utilizada no Brasil.

Para definição da solução um problema ficou evidente: a variação do nível do rio. Em épocas de cheia, o Rio das Antas acumula uma quantidade de água muito grande que somado a sua velocidade torna-se um aspecto decisivo para definição do modelo estrutural.

 

A obra só reiniciou em 1950 com o projeto do engenheiro carioca Antônio Alves de Noronha, uma das maiores autoridades em concreto armado do mundo à época. Sendo responsável pela execução a empresa Christiani Nielsen, do Rio de Janeiro.

 

No segundo e definitivo projeto, a ponte possui dois arcos paralelos e a pista localizada a uma altura média dos arcos. Não possuía pilares intermediários, isto é, dentro do rio. Somente durante sua construção foram utilizados pilares no meio do rio, como sustentação do escoramento da pista, que foram removidos após a conclusão das obras. Suas fundações estão localizadas nos taludes das margens do rio, nas extremidades dos arcos.

 

A ponte definitiva em construção: pode-se observar os pilares provisórios sob os arcos, posteriormente removidos.

As reais fundações ficavam nas extremidades dos arcos, junto aos taludes às margens do rio.

A ponte do Rio das Antas possui um vão livre em 186 metros, 287,7 metros de extensão e uma altura de 46 metros. Foi a maior ponte construída na época, em toda a América.

Durante todo o período de construção da ponte foram empregados uma média de 150 homens em atividade, em, mais ou menos, 800.000 horas de trabalho. Neste período, existia um canteiro de obras próximo ao local da construção da ponte e um alojamento dos trabalhadores, que na sua grande maioria tinha vindo de outras localidades.

Os arcos paralelos já desformados e o tabuleiro da pista passando em sua altura média.

A construção atraiu muitos trabalhadores de várias partes do Brasil e também do exterior como, por exemplo, o Mestre da Obra, Sr. Jan Albert Knoivers, que veio da Holanda.

Nesta obra, foram utilizados 41.000 sacos de cimento, 440 toneladas de ferro, 2.000 metros cúbicos de madeira e 3.300 metros cúbicos de areia. Parte dos materiais era obtida no local e parte vinha de outras regiões, principalmente de Porto Alegre.

Na época, a obra atraía muitos curiosos, jornalistas, estudantes e engenheiros, interessados em saber se esta solução era mesmo a mais adequada. Esta segunda fase causou grande expectativa por parte da população local, principalmente por causa do desabamento da primeira ponte.

 

Inaugurada pelo governador do Estado, Ernesto Dornelles, em 31 de agosto de 1952, a ponte era a terceira do mundo em arcos isolados e a primeira ponte com arcos paralelos do mundo. "A obra era de tal envergadura, que se tornou o símbolo do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer)", revela o Engenheiro José Augusto Oliveira. A cerimônia de inauguração contou com a presença de várias autoridades. Após a cerimônia, o tráfego na ponte foi liberado oficialmente marcando o início de um período de desenvolvimento para a região.

 

Apesar do longo período de construção (um total de 10 anos) e de todos os problemas enfrentados, não há duvidas que a Ponte do Rio das Antas é uma obra de arte que ficou totalmente inserida nas paisagens locais. E é motivo de orgulho para os moradores da serra, a quem trouxe progresso e desenvolvimento.

 

Hoje, a Ponte é cartão postal das cidades de Veranópolis e Bento Gonçalves e é alvo de muitos turistas e curiosos, além de ser destaque na área da engenharia pelas técnicas e recursos utilizados.

 

Graciela Rastelli - Engenheira Civil - Especializada em projetos de estruturas.

A Ponte do Rio das Antas nos dias de hoje.

Clique aqui para imprimir

Volta ao topo da página

Volta ao Menu de Artigos